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Advogado abandona carreira por sonho olímpico no hóquei

Cláudio Zacharias Rocha lembra que ouvia brincadeiras da família e dos amigos no início


Por: Globoesporte.com Em 20 de julho, 2015 - 08h56 - Pan-Americano

Cláudio acordava, colocava o terno e a gravata e partia para o escritório. Advogado tributarista, tinha um emprego fixo e o hóquei como diversão. O sonho de ajudar o esporte a crescer no Brasil, porém, deu uma guinada em sua vida. Hoje técnico da seleção brasileira que tenta uma vaga nos Jogos Rio 2016 (feito inédito), largou o Direito em 2003 e, desde então, se dedica só à modalidade. No início, sofreu com as brincadeiras dos amigos e até da família. Certo da escolha, contudo, não deu ouvidos e agora está a uma vitória de conseguir seu objetivo.

Cláudio Zacharias largou o direito pelo sonho de fazer o hóquei grande no Brasil (Foto: GloboEsporte.com)

Se o Brasil vencer os Estados Unidos na terça-feira, às 18h, de Brasília, se garante nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Se perder, ainda encara o perdedor do jogo entre Canadá e Trinidad & Tobago para mais uma chance rumo aos Jogos. De advogado a treinador de hóquei sobre a grama, Cláudio garante que fez a escolha certa.

- Até 2003 eu trabalhava com direito, com consultoria tributária. Aí fiz um curso para ensinar hóquei e passei a trabalhar só com isso. Estamos na luta. No início tinha implicância, bullying da família. O pessoal conhecia menos. E falava: "Hóquei, o que é isso?". Mas depois passaram a acompanhar e dão só força no Brasil. Recebo as mensagens e apoio. Em 2007, fiz vestibular, mas não consegui me formar ainda por conta das viagens. Mas já montamos um projeto na faculdade, temos o hóquei como matéria letiva desde 2007 - garante Cláudio.

O que move a modalidade no país não é o dinheiro. Muitos dos jogadores trancaram faculdade no último ano antes do Rio 2016 para se aprimorarem e tentarem a inédita vaga olímpica. Outros largaram o trabalho, já que as viagens e treinos fora do país duram até quatro meses. Cláudio diz que todos são movidos pela paixão, pela amizade, algo que o esporte de alto nível pouco conhece, afinal de contas esporte hoje é negócio.

- É um conto de fadas, porque não? As modalidades menores são assim no Brasil. Não temos visibilidade. Ninguém transmite o hóquei. Isso gera empatia do público ao ver na televisão. Não é dinheiro que nos move, é paixão. É amizade. Um ajuda o outro. Uns se dedicam a jogar, outros a organizar e outros a torcer. É porque gosta, coisa de amigo. Um chamou o outro para jogar, e puxava pela camisa. Agora está melhorando. Já temos crianças jogando nas categorias de base no Rio de Janeiro. Visam seleção - diz o treinador brasileiro.

Muitos jogadores deixaram trabalho e faculdade de lado pela seleção (Foto: Yan Huckendubler/Pan Am Hockey)

Cláudio conheceu o hóquei em Copacabana, em 1995. Estava jogando bola com os amigos do colégio e foi convidado para jogar um torneio. Achou estranho, relutou em ir, mas acabou aceitando. Não largou mais o taco.

- Comecei relativamente velho Achei estranho, não ia para esse torneio, mas acabei resolvendo ir. Depois viajamos para a Argentina, na Semana Santa, para jogar. E embarquei nessa. Em 1996 fiz um curso de treinador, em 1997 outro. Em 1998 jogamos o Sul-Americano, no Chile. E fui. Não joguei o Pan em 2007, lá trabalhei na organização. Em 2008 fui treinador, estava fora de forma. E joguei de 2009 a 2011. Depois parei e assumi a seleção - lembra Cláudio.

Uma vitória sobre os Estados Unidos garante a seleção no Rio 2016. Seria a realização do sonho do cara que largou o terno e a gravata para fazer crescer no Brasil um esporte que poucos conhecem.

- Nossa cobrança interna é grande. Temos uma oportunidade gigante pela frente. Temos agora duas chances de nos classificarmos para as Olimpíadas. Vencendo os EUA vamos para as semifinais, uma possível disputa de medalha. E depois, se perder, temos a segunda chance contra Trinidad & Tobago ou Canadá. Se vencermos o primeiro jogo, já estamos no Rio 2016, se não, temos que vencer depois. Seria muito legal para o esporte se conseguíssemos nos classificar para o Rio de Janeiro. É aquele negócio. Está perto, mas está longe. Está aqui do lado, mas não está também. Seria uma decepção não conseguir a vaga. Sabemos que existe a possibilidade, mas não pensamos nessa hipótese. Treinamos bastante para melhorar. Agora é ir para a semifinal.