Fronteiras Cambiantes: trabalho traçado pelas ruas da cidade

Nelson Carvalho abre sua primeira individual com desenhos a nanquin


Por: O Liberal Em 29 de dezembro, 2016 - 08h49 - Exposições

A exposição “Fronteiras Cambiantes”, do arquiteto e desenhista Nelson Carvalho será aberta hoje, na Casa do Fauno (Rua Aristides Lobo, 1061, entre Benjamin e Rui Barbosa). É a primeira individual de Nelson Carvalho, artista que traz no traço, as expressões arquitetônicas e oníricas de uma cidade olhada por ele, desde a infância. A noite conta ainda com show do Trio Jazzvairado, formado pelos músicos Bob Freitas (guitarra), Cássio Lobato (bateria) e Mário Jorge Garcia (contrabaixo). A programação se inicia às 19h e a música ao vivo, às 22h. 

“Fronteiras Cambiantes” traz desenhos de fachadas de prédios antigos, visões de um patrimônio arquitetônico e praças, tudo riscado a nanquim, traduzindo a cidade pelo olhar de Nelson Carvalho. “É o meu mapa sentimental com essa cidade; é meu olhar curioso. São as minhas fronteiras, que estão sempre mudando e me permitindo experimentar cada vez mais”, diz o artista.

As mais de 20 imagens que estão na exposição se remetem às andanças de Nelson Carvalho, pela orla, nas entranhas dos bairros históricos ou pelo centro da cidade, em que foi percebendo as edificações em contextos arquitetônicos e paisagísticos que o estimularam a desenhar.

“Talvez a gente não reconheça de cara, nem todos os desenhos são tão evidentes, alguns são muito livres, meio malucos”, brinca. “Alguns são abstração pura, mas também são exercícios para uma gramática de desenho, uma assinatura de desenho, um jeito de dialogar com meus demônios”, diz Nelson Carvalho que ainda criança veio para Belém, passando sua infância e adolescência entre as décadas de 80 e 90, percorrendo as várias ruas, descobrindo a cidade.

Reprodução

“Eu sou do Piauí, mas Belém é que me construiu como pessoa, é minha referência, é vital para minha existência, ela que me faz existir como arquiteto, artista e alguém que olha pra cidade tentando traduzi-la pessoalmente e agora é o que vai aparecer nos desenhos”, diz o artista.

“Fronteiras Cambiantes” é a primeira exposição do artista, mas vem fechar um ciclo de uma década. “Faz muito tempo que desenho, há dez anos eu diria que de forma mais consistente. Eu já desenhava antes disso, mas agora é diferente, existe uma questão de honestidade do traço que se manifesta de um jeito muito verdadeiro”, diz o artista. “Faço os desenhos de memória. Tem uma verdade construída ali, a partir do meu contato com a arquitetura, que se mostra evidente no meu desenho, ela é real”.

Carreira

A carreira foi impulsionada no final dos anos 1990 com a menção honrosa recebida em concurso nacional para reforma do Complexo do Ver-o-Peso, o que levou Nelson Carvalho rapidamente à arquitetura na área do patrimônio.

“Não levamos o primeiro lugar, mas fomos o único projeto classificado na região Norte”, comenta o arquiteto que acabou trabalhando na implantação do projeto vencedor, que até hoje está lá e ainda a atuou como arquiteto nas obras do Memorial dos Povos, Palacete Bolonha, Palacete Pinho, Ver-o-Rio, enfim, em obras da prefeitura situadas do Tucunduba ao centro da cidade.

“Isso tudo que obviamente vem bater na minha memória e no meu encontro com a cidade. Desencadeia um olhar diferente que, de forma intuitiva, somado a outros momentos, resultam, com habilidade de traço, nestes e muitos outros desenhos”, reflete.

Sobre suas influências, para além da arquitetura, Nelson Carvalho diz que são vastas. “PP Condurú, Paulo Ponte Souza, Emmanuel Nassar, Emanuel Franco. Vou ver o trabalho dos meus amigos, estudo filosofia, fotografia. E fico pensando que o desenho que faço é resultado do meu encantar com tudo, e consegui compreender que posso me apropriar de Belém e dizer mais dela, por meio do meu traço”.

Nelson Carvalho já morou no bairro do Reduto por três vezes. “Adoro esse bairro, diz muito sobre Belém”, comenta como quem está de volta ao Reduto, agora, não só pelas caminhadas que ainda costuma fazer ou pela exposição que ficará aberta à visitação até fevereiro, mas porque há um traço dele a mais na Casa do Fauno, um casarão localizado na Aristides Lobo, bem no coração do bairro.

O arquiteto, professor e desenhista, depois de formado, trabalhou produzindo, por dez anos, arquitetura de interior. “Uma microarquitetura, experiência que durante um tempo foi fundamental pra mim, até que não quis mais e resolvi mudar o rumo das coisas. O que faço hoje, neste sentido, vem de escolhas minhas, como a de fazer a Casa do Fauno”, comenta.

Inaugurada há três meses, no dia 29 de setembro, a Casa do Fauno passou por um processo de ressignificação, um trabalho arquitetônico de interior conduzido por Nelson Carvalho, em parceria com Cleide Cunha, proprietária da Casa do Fauno, e Clodoaldo Cunha, engenheiro responsável pelas obras. Nada mais justo do que fazer a primeira exposição neste espaço.

“Imagina pegar uma casa antiga e fazer uma transformação naquele ambiente, e propor uma retomada de uso, dando a ele outro sentido e socializando o lugar. É uma casa lindíssima, um lugar fantástico. Fui um facilitador do que tinha que ser feito ali, e isso me enche de orgulho. É um lugar que eu recomendo, e tem tudo a ver com o que as pessoas vão ver na exposição, só que com a lógica do desenho. É isso que me faz sentir vivo e atuante em Belém”, finaliza Nelson Carvalho.

Serviço:

“Fronteiras Cambiantes”, exposição de Nelson Carvalho. 

Abertura às 19h. 

Show do Trio Jazzvairado, a partir das 22h. Happy Hour 

das 17h às 20h. 

Casa do Fauno - Rua Aristides Lobo, 1061, entre Benjamin e Rui Barbosa. 

Entrada para os shows ao vivo: 

R$ 10,00 (na conta).