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Primeiro atleta dos EUA a se dizer gay vê esporte homofóbico

Jason Collins, ex-NBA, primeiro jogador de uma grande liga americana a ter-se declarado gay


Por: Extra Em 22 de outubro, 2015 - 08h31 - Basquete

Foto: Ana Andrade/Divulgação/Univers / Ana Andrade/Divulgação/Universidade Estácio de Sá

Com a mesma firmeza que enfrentava os maiores gigantes dos garrafões da NBA, como Shaquille O’Neal e Dwight Howard, o ex-pivô Jason Collins fez história ao se tornar o primeiro atleta das maiores ligas dos Estados Unidos a ter-se declarado gay em abril de 2013. Nesta quarta-feira, em evento no Rio, ele declarou que o esporte é ainda um meio hostil aos gays.

— Eu nunca senti preconceito contra mim, diretamente, mas tenho certeza de que ele existe. Ainda não conseguimos pôr fim ao racismo e há homofobia no esporte. Mas, felizmente, houve Martina Navratilova, Billie Jean King e eu mesmo, para que os atletas GLBT se sintam capazes de derrubar estereótipos, preconceitos e ideias erradas e que possam falar com as pessoas — declarou Collins em entrevista ao GLOBO após palestra sobre diversidade e preconceito a alunos de educação física da Universidade Estácio de Sá, no Rio.

Ele e a ala Chiney Ogwumike, americana de origem nigeriana, estão na cidade tomando parte de um projeto sócio-esportivo do Consulado Americano. Durante a palestra, Collins lembrou ter atuado na NBA entre 2001 e 2014, tendo passado por times como New Jersey Nets, Memphis Grizzlies, Minnesota Timberwolves, Atlanta Hawks, Boston Celtics, Washington Wizards e Brooklyn Nets. Quando jogava no Washington, depois de ter assistido a dois casos polêmicos na Suprema Corte, envolvendo homossexuais e resolveu assumir sua condição em artigo na importante revista “Sports Illustrated”. Até então, ele disfarçava suas preferências sexuais, dizendo a companheiros de time que sua namorada morava em outra cidade. Foi o primeiro atleta das grandes ligas dos EUA (as outras são NFL, de futebol americano; MLS, de beisebol, e NHL, de hóquei) a ter-se assumido homossexual.

— Fui proativo e mostrei ao mundo quem eu era. Recebi o apoio de jogadores, como Jason Kidd, do presidente da NBA, Adam Silver, e quando fui para o Brooklyn Nets em 2014, fui contratado porque eles me consideravm um bom jogador e bom companheiro de time. Eles me apoiaram e me aceitaram, e depois dos jogos, podia conversar com meu namorado no vestiário. Eu tive a sorte de ser aceito pela minha família, e eles (os amigos) se tornaram minha nova família — relatou. — Eu cresci numa família muito religiosa e temia que meus parentes pudessem uar a religião para me afastar deles. Mas as religiões devem ser maneiras de unir as pessoas, e foi isto o que aminha família fez. Não importa a raça, a religião, ou o que for, mas sim como você compete, se você melhora o time e se é um bom companheiro de equipe. Para a sociedade, interessa que você seja uma boa pessoa.

Na palestra, um professor de educação física perguntou a Collins como agir com um atleta gay de sua equipe que não se declara como tal, mas que foi ofendido pela torcida adversária durante um jogo. Collins, que vem trabalhando como palestrante para a NBA em empresas e universidades, manifestou seu ponto de vista.

— Primeiramente, apoiem o atleta, você como técnico e os seus companheiros de time. Se vocês perguntarem diretamente, ele pode não estar pronto para se declarar. Mas vocês têm de criar um ambiente e sinalizar a ele que lhe darão seu apoio. Pode até comentar que esteve comigo. Quando ele for ofendido, vá diretamente a quem o ofendeu e pergunte por que está xingando seu atleta — argumentou. — Procurem criar um espaço seguro para ele no time e criem uma cultura de aceitação e de inclusão em sua equipe, uma atmosfera para que ele se sinta à vontade para sair do armário. E se vocês puderem conversar com um psicólogo do esporte será otimo.

Tanto o gigante Collins, de 2,13m, natural da California, quando a texana Chiney, de 1,91m, disseram ter superado muitas dificuldades em seus começos de carreira, para chegarem a ter uma trajetória profissional na NBA e na WNBA. O preconceito racial foi outro problema que ambos tiveram de superar.

— Não há muito preconceito racial no basquete da NBA (a maioria dos atletas são negros), mas o racismo existe na sociedade americana, onde algumas pessoas costumam usar palavras e expressões ofensivas aos negros. Várias vezes fui parado pela Polícia ao volante do meu carro, sem estar trafegando acima do limite de velocidade. Joguei no Atlanta Hawks, em Atlanta, na Georgia, que fica no Sul dos Estados Unidos e onde há maior preconceito. Quando um negro oriundo do Norte ou de outra região vai para o Sul, tem o choque com a maneira como algumas pessoas nos tratam. Certa vez em Atlanta, um casal me xingou. Eles sabiam quem eu era e queriam me provocar — relatou Collins, acrescentando que há alguns dias seu amigo John Henson, pivô do Milwaukee Bucks, que é negro, foi acusado de furto numa joalheria de luxo em Wisconsin e foi interrogado por policiais, mas depois recebeu um pedido de desculpas por parte do dono da loja.

Em sua primeira vinda à América do Sul, Collins gostou do povo, da ótima comida e da influência afro na cultura brasileira.

— Aqui, vocês têm diferentes tons de pele, e é bonito de ver. Também é muito bom observar as pessoas na praia felizes com suas cores de pele e com seus corpos — comentou ele, que joga tênis cinco vezes por semana e é fã dos filmes e séries na TV.

Atleta do Connecticut Sun, Chiney, por sua vez, lembrou, como filha de nigerianos, que seus pais eram vistos como diferentes, porque embora negros não eram americanos. Além diso, havia também certo preconceito contra a mulher no esporte.

— Muitos amigos diziam aos meus pais que eu e minhas irmãs deveríamos ficar trabalhando na cozinha, mas meus pais sabiam o quanto o esporte era importante — contou.

CHINEY GARANTE QUE VIRÁ AO RIO EM 2016

Extrovertida, ela admitiu que quando criança queria ser cirurgiã, mas logo percebeu que lhe faltava o talento. Ao mesmo tempo, sua vida mudou a partir do momento em que começou a se dedicar ao basquete, que comparou a uma línguagem universal.

— Não falo português, exceto algumas palavras como ‘beleza’, ‘farofa’ e ‘açaí’, mas se vocês jogam basquete, podemos jogar, e esta é uma linguagem. As pessoas têm origens diferentes e merecem ter oportunidades. É importante garantir oportunidades para todos — enfatizou ela, que gosta de música e tem como paixão ir à África ensinar o basquete às crianças. — É preciso garantir que os times sejam inclusivos (meninos e meninas) e que os projetos deem o memo apoio ao masculino e ao feminino.

Chiney e sua irmã Nneka atuam na WNBA. Ala do Los Angeles Sparks, Nneka foi campeã mundial pelos EUA ano passado, atuam na WNBA e deverá ser um nome certo na seleção olímpica americana no ano que vem no Rio. Chiney, cujo verdadeiro nome é Chinenye, não quer ficar para trás.

— Em janeiro eu sofri uma lesão e fiquei fora dos camps de treinamento, mas com toda certez eu virei ao Rio nas Olimpíadas. Minha irmã vai vir, e eu vou vir também seja na seleção ou seja como ‘cheerleader’ (chefe de torcida) — brincou.

Sobre o basquete brasileiro, Chiney lembrou ter enfrentado jogadoras da seleção verde-amarela em torneios de divisões de base e de ter ficado toda roxa e dolorida porque as brasileiras jogavam muito duro e tinham muita vontade de vencer. Da WNBA, ela elogiou as pivôs brasileiras Érika, Clarice e Damiris. Não descartou que o Brasil possa chegar às finais na Rio-2016, por atuar em casa, desde que defenda bem e arremesse bem, como costuma fazer. Nesta terça-feira, ela e Collins viveram as experiências de jogar basquete em cadeira de rodas na Andef-Niterói e de tomar parte numa clínica com crianças na Cruzada São Sebastião:

— Realmente, já me sinto um tanto brasileira. É minha primeira vez na América do Sul e falo um pouco de espanhol, quase nada de português. Adorei as visitas à Andef e à Cruzada. As crianças da Cruzada são ótimas, são fortes, e jogar numa cadeira de rodas é muito duro, mas divertido. É algo que eu nunca havia feito.

Presentes à palestra, o diretor técnico da Confederação Brasileira de Basquete, Vanderlei Mazzuchini, e o coordenador da Escola Nacional de Treinadores da entidade, Leonardo Ribeiro, anteciparam que a confederação e a Estácio de Sá vão lançar a 16 de novembro o curso de capacitação para professores de educação física de todo o país se tornarem técnicos da modalidade. As aulas serão à distância. Já as provas serão nos campus da univesidade, que tem 500 mil alunos e dez mil professores em todos os estados do país.